Boca Grande

[…] Levantei-me. Que dia! Que céu azul. Que sol. Com um dia destes, ainda há quem tenha coragem de fechar criaturas humanas em calabouços?
Senhores da polícia: soltem-na. (Está um dia tão bonito!) Soltem-na! Ponham-na na rua, depois de lhe darem um bom raspanete. Mas soltem-na.
Ou, então, se não podem suster essa máquina infernal de papel selado, livros, carimbos, interrogatórios, ofícios, advogados, continências, selos e mais selos, e mais selos – metam-lhe uma lima dentro de um pão de quilo, para ela cortar as grades e evadir-se por uma corda feita com os lençóis de catre….
Mas, soltem-na.
Ouviram, Srs. Polícias, Sr. Carcereiro, Sr. Juiz, Sr. Conselheiro do Supremo Tribunal, Srs. Homens Todos?
Soltem-na!
E se precisarem de alguém para a substituir na enxovia, prendam-me a mim, prendam este, aquele, tu, o outro, ele, nós, vós, todos… porque todos lhe roubámos qualquer coisa muito antes de ela roubar não sei quê a não sei quem… Porque apenas lhe demos meia dúzia de manhãs de sol na praia da Cruz Quebrada, onde a pobre «Boca Enorme» se esforçou em vão por viver a vida toda, duma só vez.
Soltem-na! (Se acham que estou a ser excessivamente lírico, escrevam-me cartas de protesto.) Mas soltem-na. (Está um dia tão bonito!) Soltem-na!

– José Gomes Ferreira, ” A «Boca Enorme»”, in “O Mundo dos Outros”

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