Amor Combatente

Lembras-te do Alfredo? Era um camponês do Alentejo a quem ensinaste muitas coisas que ele agora gostaria de te ensinar. Que a terra pertence a quem trabalha, por exemplo. Como sabes, ainda há quem pense que o mundo foi dividido em bocados por um ente metafísico qualquer que os entregou depois ao senhor Silva, ao senhor Fonseca, ao senhor Marquês de Pepineira-Mor, etc., para explorar os outros homens e criar javalis e veados para caçar com os amigos…

Que estás a insinuar? Que não mantenho os meus antigos princípios? Mantenho sim. Apenas mudei de táctica. Mais nada.

Mudaste de táctica? Ora, ora, ora. Mudaste de pele, é o que é. Como as serpentes. Porque não confessas, simplesmente, que nunca amaste o povo tal como ele é, de carne, ossos e suor. Para ti foi sempre uma abstracção, qualquer coisa de irreal, uma palavra às ordens dos políticos nos discursos….

in 5 caprichos teatrais : inspirados na Revolução Portuguesa de 1974 e escritos em 1977-78 por José Gomes Ferreira

Então o triste povo sitiado
faz das bolsas bandeiras de amizade.

*

Não te rendas, meu povo. Não te rendas
às mãos de quem te quer voltar a ver
cativo e desgraçado. Não te vendas.
Aqui nada mais temos a vender.

Não te cales, meu povo. Que a saudade
já não pode doer dentro de nós.
Se o teu punho constrói a liberdade
levanta ainda mais a tua voz.

Não te rendas, meu povo. Não te rendas.
Que já nos querem sós. E divididos.
Que já nos querem fracos. E calados.

Não te cales, meu povo. Não te vendas.
Que quando nos quiserem já vencidos
hão-de ter-nos de pé. E perfilados.

*
in AMOR COMBATE, Joaquim Pessoa

O meu amor só se rende ao amor que se rende
ao meu amor que não se rende ao amor…

Não te rendas ó meu povo, não
ás mãos de quem te quer voltar a ver cativo e desgraçado
não te vendas porque aqui nada temos para vender
quando nos quiserem já vencidos hão-de ter-nos de pé…

Não, não te rendas companheira, não te rendas
Não te cales ó meu povo, não
que a saudade já não pode doer dentro de nós
pois já nos querem sós, fracos, divididos e calados
se o teu punho constrói, também destrói
levanta ainda mais a tua voz
Não, não te rendas meu amigo, não te rendas
não te rendas companheiro, não
não te rendas minha amiga, não
não te rendas meu amor, NÃO!NÃO!NÃO!

in Amor Combatente, Focolitus

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