Gestos Simples

O pior pesadelo do Império é a interioridade e  seu pior cenário  seria que nos encontrássemos uns aos outros na nossa tristeza.

Pela sua própria natureza, uma amizade sólida desestabiliza as subjetividades e torna as singularidades não-equivalentes. Enquanto numa democracia liberal os cidadãos devem ser considerados equivalentes, a amizade elimina as equivalências; não é possível considerar um amigo enquanto parte de um conjunto, mas apenas enquanto um outro cuja existência muda a nossa própria existência. A amizade é baseada numa proximidade demasiado estreita para que se considere um amigo enquanto outra coisa que não um outro eu [heteros autos]. Ou seja: “a amizade é a instância desta percepção simultânea da existência de um amigo na consciência da própria existência… O amigo não é outro Eu, mas uma alteridade imanente na mesmidade, um devir-outro de si.

A amizade torna-se uma forma de eliminar o mito do indivíduo, um método para encontrar…

com gestos simples como dares a tua mão

faremos o caminho até à autogestão

Quero subir mais alto, construir uma consciência

Quero fundamentar a minha irreverência

mas se tu não quiseres, se sentires que o teu caminho é outro

todos nos ensinamos, todos temos o nosso método

porque tenho a sensação de que algo corre mal

“Tens que te adaptar à realidade actual”

Mas esta realidade não cobre os meus interesses

nem os teus, nem os deles, só os do Capital!

O mundo diz-nos que somos responsáveis por nós próprios, que nos devemos ajustar ao mercado. Devemos desenvolver as nossas competências para encontrar emprego, preparar-nos para eclipsar a competição, investir no nosso capital humano para que os nossos proveitos futuros nos possam garantir conforto e riqueza.É o desespero de existir num mundo em que nos é dito que podemos ser qualquer coisa e que constantamente nos devemos mudar a nós próprios em função das necessidades do mercado.

Se existe esperança, ela encontra-se na re-interpretação do conceito de si e de amizade. Desta forma, o refrão anarquista comummente visto em posters por todos os E.U-A – “Sejam cuidadosos uns com os outros, para que possamos ser perigosos em conjunto.” – pode ser entendido a partir de um novo prisma. Ao invés de um apelo à fragilidade e ao respeito, ou por “espaços seguros”, podemos compreendê-lo enquanto convite para uma troca intensiva de atenção e amizade que nos deixe mais poderosos.

 

 

 

 

 

 

 

0 MAIS BELO ESPECTÁCULO DE HORROR SOMOS NÓS.

Este rosto com que amamos, com que morremos, não é nosso; nem estas cicatrizes frescas todas as manhãs, nem estas palavras que envelhecem no curto espaço de um dia. A noite recebe as nossas mãos como se fossem intrusas, como se o seu reino não fosse pertença delas, invenção delas. Só a custo, perigosamente, os nossos sonhos largam a pele e aparecem à luz diurna e implacável. A nossa miséria vive entre as quatro paredes, cada vez mais apertadas, do nosso desespero. E essa miséria, ela sim verdadeiramente nossa, não encontra maneira de estoirar as paredes. Emparedados, sem possibilidade de comunicação, limitados no nosso ódio e no nosso amor, assim vivemos. Procuramos a saída – a real, a única – e damos com a cabeça nas paredes. Há então os que ganham a ira, os que perdem o amor.

Já não há tempo para confusões – a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos. Não se pode confundir o amor a uma causa, a uma pátria, com o Amor. Não se pode confundir a adesão a tipos étnicos com o amor ao homem e à liberdade. NÃO SE PODE CONFUNDIR! Quem ama a terra natal fica na terra natal; quem gosta do folclore não vem para a cidade. Ser pobre não é condição para se ganhar o céu ou o inferno. Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores.

A acção poética implica: para com o amor uma atitude apaixonada, para com a amizade uma atitude intransigente, para com a Revolução uma atitude pessimista, para com a sociedade uma atitude ameaçadora. As visões poéticas são autónomas, a sua comunicação esotérica.

Os profetas, os reformistas, os reaccionários, os progressistas arregalarão os olhos e em seguida hão-de fechá-los de vergonha. Fechá-los como têm feito sempre, afinal, e em seguida mergulharem nas suas profecias. Olharem para a parte inferior da própria cintura e em seguida fecharem os olhos de vergonha. Abandonarem-se desenfreadamente à carpintaria das suas tábuas de valores, brandirem-nas por cima das nossas cabeças como padrões para a vida, para a arte, para o amor e em seguida fecharem os olhos de vergonha às manifestações mais cruéis da vida, da arte e do amor.

MAS NÃO IMPORTA, PORQUE EU SEI QUE NÃO ESTOU SOZINHO no meu desespero e na minha revolta. Sei pela luz que passa de homem para homem quando alguém faz o gesto de matar, pela que se extingue em cada homem à vista dos massacres, sei pelas palavras que uivam, pelas que sangram, pelas que arrancam os lábios, sei pelos jogos selvagens da infância, por um estandarte negro sobre o coração, pela luz crepuscular como uma navalha nos olhos, pelas cidades que chegam durante as tempestades, pelos que se aproximam de peito descoberto ao cair da noite – um a um mordem os pulsos e cantam – sei pelos animais feridos, pelos que cantam nas torturas.

Por isso, para que não me confundam nem agora nem nunca, declaro a minha revolta, o meu desespero, a minha liberdade, declaro tudo isto de faca nos dentes e de chicote em punho e que ninguém se aproxime para aquém dos mil passos

EXCEPTO TU MEU AMOR EXCEPTO TU
MEU AMOR

minha aranha mágica agarrada ao meu peito
cravando as patas aceradas no meu sexo
e a boca na minha boca

conto pelos teus cabelos os anos em que fui criança
marco-os com alfinetes de ouro numa almofada branca
um ano dois anos um século

agora um alfinete na garganta deste pássaro
tão próximo e tão vivo
outro alfinete o último o maior
no meu próprio plexo

MEU AMOR
conto pelos teus cabelos os dias e as noites….
e a distância que vai da terra à minha infância
e nenhum avião ainda percorreu
conto as cidades e os povos os vivos e os mortos
e ainda ficam cabelos por contar
anos e anos ficarão por contar

DEFENDE-ME ATÉ QUE EU CONTE
O TEU ÚLTIMO CABELO

 

 

“Focas robots” como contra-insurreição – Amizade e cuidado de si, de Espinoza a Tiqqun.

António José Forte

 

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s